1940 - 1950 - A introjeção de valores e formação do caráter

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Sou o segundo de seis filhos. Minha irmã mais velha, Enilda Ponce Dias, depois Enilda Zimmermann, nasceu dois anos e meio antes. E o último irmão Luiz Carlos Cruz Pacheco, adotado, nasceu em fevereiro de 1957.

Meu pai, Armando de Oliveira Couto Dias, trabalhava em contabilidade no frigorífico da Swift e, depois, como eletrotécnico formado através de cursos por correspondência (o que hoje seria classificado como EAD). Minha mãe, Ignez Ponce Dias, dona de casa.

Ambos instrumentistas amadores, ele tocando violino e ela piano. Quase sempre focados em música erudita. Sempre voltados para o novo, me obrigando a experimentar tudo o que fosse possível, em particular comidas. Constantemente escutei: se não gostar não gostou mas se não experimentar nunca vai saber e evoluir!

Sou neto de dois avós portugueses, um espanhol e outra brasileira. Esta última com família emigrada desde a Bahia, BR. Nasci em Rio Grande, RS, em 13/06/1940, quando minha família residia na Rua 19 de Fevereiro, a meia quadra da Praça Tamandaré que era palco de manifestações e comícios políticos. Tão a moda na época.

Por outro lado, nessa rua de uma quadra só, moravam uma alemã, Vovó Pudindi (Leopoldina), com acompanhante vindo da colônia alemã de Morro Redondo, então município de Pelotas, Olga. E outra alemã no final da rua tia Baby, filha de Vovó Pudindi. Suas empregadas domésticas também vindas da mesma região. Todas brancas, e quase sempre loiras, de olhos azuis.

Aos 7 anos, minha família mudou-se para outro extremo da cidade, na Rua Conde de Porto Alegre, para uma casa presenteada por meu avô paterno.

Minha mãe sofria de asma, por isto ficava por longos períodos na cama e numa dessas vezes, com cerca de cinco anos, foi preciso que eu fosse preparar arroz para a família. Passada a receita preparei o arroz… mas não me avisaram que o arroz deveria ser lavado.

Isto serviu para chacota por muitos anos – bullying – a respeito de minhas habilidades culinárias. E, lembremos,  naquele tempo o arroz era disponibilizado apenas em sacos de 50 kg, em juta, e vendido a granel nos armazéns.

Aguentei por anos esta e outras gozações, em silêncio, o que me desenvolveu uma marca: até hoje me atrevo a cozinhar pratos crioulos, a  maioria com base em arroz, como paella, carreteiro, arroz de bacalhau, arroz de braga e outros. Mas quando cometo erros não falo nada: o erro fica por conta de um diferencial na receita…

Merece registro a convivência que meu pai, já como eletrotécnico, me proporcionou dentro da vila residencial da Swift, na área de seu porto exclusivo: a beleza estética das casas em meio a jardins. Tudo era diferente do restante da cidade e – principalmente – a estrutura operacional dos casais e filhos, onde os homens e crianças ficavam cortando a grama e fazendo pequenos reparos nos jardins e na casa. Enquanto as mulheres cuidavam da cozinha e dos filhos. Depois, os dois dividiam a limpeza na cozinha.

Este modelo teve e tem até hoje forte influência na minha configuração familiar, especialmente reforçada pelo tempo em que eu e minha atual esposa, Vera, vivemos em Atlanta, nos EUA. Alugamos ali parte de uma casa, em bairro que em muito se assemelhava a Vila Residencial da Swift.

Pois foi neste ambiente que vivi minha infância e parte da adolescência, até os 16 anos. Sempre em meio a descendentes de alemães – particularmente famílias Emil e Martensen – e portugueses que cultivavam música erudita, literatura e filosofia.

E ainda interagi com os blackouts na cidade, durante a segunda guerra mundial, como medida preventiva de possíveis ataques marítimos por parte de alemães aos molhes da barra. Desses blackouts, lembro de quando íamos brincar na praça, no escuro. Depois de, durante o dia, minha irmã levar panelinhas de alumínio, de brinquedo, para doar metais para o Brasil. Havia uma pilha deles no meio da praça.

E também lembro das noites em que meu pai ficava tentando captar mensagens de rádio inimigas em equipamentos desenvolvidos por ele mesmo. Ele era rádio-amador, prefixo PY3HL.

Fui alfabetizado em casa, por minha madrinha Elly Emil de Abreu. Tia Elly, como era mais conhecida, também era madrinha de minha mãe. Ignez foi acolhida pela mãe de Tia Elly, Vovó Ema (Emil de Abreu), quando ficou órfã de mãe. Isto porque, na época, Tia Elly e seu irmão Gustavo – o padrinhos dela – eram adolescentes.

Mas meu processo de alfabetização aconteceu ao natural: Tia Elly, que também alfabetizara minha irmã Enilda, ficava fazendo exercícios com ela enquanto eu ficava olhando e desenhando garatujas.  Só que… um dia alguém olhou as garatujas de ponta cabeça e descobriu que eu fazia as mesmas tarefas de minha irmã… de ponta-cabeça!

Na sequência estudei o curso primário no Grupo Escolar Juvenal Muller e como cheguei na escola já alfabetizado, colocaram-me em classes acima de minha idade, considerada adequada pelas escolas de então.  Assim, pulei direto do primeiro para o terceiro ano primário. Cursei o terceiro com alguma dificuldade, mas tirei o primeiro lugar (era rotina, na época, a classificação) no quarto ano e segundo no quinto.

Depois, fiz o exame de admissão, fui aprovado e entrei no ginásio com dez anos.

Um destaque: a cidade de Rio Grande oferecia a quinta maior biblioteca do Brasil, nos anos 1950, e desde cedo aprendi a olhar, por curiosidade, o que continha!

E por natural influência do ambiente familiar também estudei piano e teoria musical, até o 4º ano.

Em 1949-1950 meu pai, Armando, construiu transmissores e comprou gravadores (inicialmente em arame e depois em fitas) para apoiar a campanha do Ele Voltará (Getulio Dornelles Vargas para Presidente da República).  Eu o acompanhei no clima, no entusiasmo, em algumas viagens e em muitos comícios.

Essas atividades me desenvolveram uma percepção e visão do mundo social e político, com forte viés ideológico, dito de esquerda. Mas com formato mais voltado para populismo.

Por outro lado, convivia com um contraponto político, na venda do Sr. Augusto, na esquina da casa da família, na Rua Conde de Porto Alegre com rua Coronel Sampaio. Nesse negócio, onde se comercializava de quase tudo, havia um fórum informal no balcão da cachaça com Underberg, onde aconteciam animados debates políticos entre estivadores do porto e – especialmente – o Sr. Rui Silveira, algumas vezes qualificado como integralista. Eu nunca soube se era verdade ou não.

E outro detalhe: como estes estivadores eram homens robustos – claro – e eu era franzino e baixinho, associei aquela aparência ao costume deles tomarem Underberg, o que teria, anos mais tarde, influência em seus hábitos alcoólicos.

Ainda nesse ano,  de 1950, nasceu meu próximo irmão, Gilberto, com dez anos de diferença, portanto. Na  configuração da família Ponce Dias isto viria a ter grande influência na próxima etapa de minha  vida. Afinal, aprendi desde quando escutava a voz de Meu pai, a seguinte frase: meu filho, és o homem da casa!

Quais marcas foram consolidadas no ciclo 1940-1950?

  • Que é fundamental a solidez do caráter, como patrimônio individual, familiar e da hierarquia. Hierarquia esta que incorpora valores de uma cultura, mas que é – em qualquer circunstância – uma manifestação da natureza.
  • Que gostemos ou não, a política é o condicionador de nossas vidas cotidianas.
  • Que aquilo que é do governo não tem dono (infelizmente…).
  • Que políticos são regidos por leis próprias, diferentes das do cidadão comum (infelizmente…).
  • Que se trabalha por ideal, prioritariamente.
  • Que palavra dada se cumpre, incondicionalmente.
  • Que é preciso experimentar para formar juízo próprio.
  • Que os pobres precisam de nossa ajuda e compaixão.
  • Que ao se aguentar gozação (ou bullying?) em silêncio, se aprende muito.
  • Que arroz se lava, antes de preparar. E mais útil: que conhecimentos deixam de ter significado e utilidade com o tempo, visto que anos mais tarde o arroz não mais viria em saco de juta para venda a granel, mas em saco plástico devidamente higienizado…