1950 - 1960 - A percepção do mundo social, político e a estruturação dos sonhos profissionais e pessoais.

A convivência citada, com os descendentes de alemães e portugueses, seria uma marca que permaneceria por toda a minha vida. Tanto em preferências para lazer quanto – especialmente – para orientação de turismo cultural.

Iniciei o ginásio no Colégio Estadual Lemos Jr, que abandonei no terceiro ano, após ser reprovado em todas as matérias. Menos Canto Orfeônico.

Naquele tempo havia um ritual de passagem aceito socialmente, no Lemos Jr: um corredor polonês (não se  sabe a razão, mas era assim qualificado socialmente) ou cabaré da guampa, como era referido pelos alunos. Ele consistia em os alunos do primeiro ano de ginásio, usando uniforme com calças curtas e apenas um cinto com fivela de metal – tipo escoteiros – passarem sob uma fileira de alunos do segundo grau que, com calças compridas, cintos e talabartes na mão faziam duas colunas, surrando os novatos. Um de seus líderes, José Antonio Martinez, vulgo Bodinho, viria me encontrar, como cliente, anos mais tarde em parceria muito construtiva.

A diferença foi que o ritual, para mim, se repetiria ao longo de quase três anos: a cada vez que minha madrinha, Elly de Abreu, colocava uma nota baixa para um adolescente do segundo grau o ritual era repetido privativamente.  Elly era professora de Canto Orfeônico, o que – na época – podia reprovar um aluno por um ano inteiro. Assim, a consequência era que fui submetido a constantes sessões de bullying, principalmente físicos, durante os três anos em que tentei cursar o ginásio.

Incapaz de reagir fisicamente aos constantes ataques, porque era muito franzino, baixinho e usava calças curtas, fui desenvolvendo uma característica que reforçaria a vivência de ter preparado arroz sem lavar a matéria-prima: a capacidade de resiliência e de saídas intelectuais diante de situações adversas. E isto marcaria as  características profissionais que fui desenvolvendo ao longo de minha carreira.

Por outro lado, eu não denunciava o grupo porque oscilava entre o medo de sofrer represálias mais pesadas, na rua, e também porque – claro – sonhava chegar ao segundo grau e pertencer aquele grupo.

E dentro da classe, florescia uma amizade com Leôncio Gonçalves Filho que se  anteria ao longo de toda a minha vida. Apesar de, após reencontros e desencontros, incluindo distanciamento geográfico, permanecer sempre ativa.

Em 1952 nasceu minha irmã, Elaine. A assunção deste novo desafio, por Enilda e Eu, já foi limitada, mas Elaine também teria grande influência na trajetória que percorre até hoje, com forte vínculo afetivo entre nós.  Especialmente porque ela, na adolescência, morou com a família Almeida Dias, durante três anos, em Novo Hamburgo, RS.

Assim, entre 1950 e 1953 eu e minha irmã Enilda, dividíamos algumas das principais tarefas de alimentação e higiene dos irmãos Gilberto e Elaine.

Durante estes 1952 e 1953, ainda trabalhei informalmente na loja-oficina de seu pai, na Rua Conde de Porto Alegre 292, em Rio Grande. Cobria as ausências dele no atendimento de balcão e fazia a cobrança de serviços prestados, perante clientes, em diferentes pontos da cidade. Ele e minha mãe, sempre foram muito dispostos a usar novas tecnologias, por isso ela já usava em casa fogareiros Primos de duas bocas, com regulagens individuais enquanto ele dispunha de gravador de som em arame, logo substituído por fitas… estereofônicos. Marca AEG-Telefunken.

Tudo, claro, contrabandeado dos navios que aportavam ao porto de Rio Grande para receber manutenção nos equipamentos eletrônicos.

Mas em contrapartida, eu pude conviver com um exemplo de resistência ao novo: meu tio Paulo, que ficara rico, instalou um telefone automático na casa em que residiam, com minha avó Marieta, quando na cidade só havia 999 aparelhos destes.

Pois bem, eu fui todo contente conhecer o aparelho e a felicidade (imaginava…) de minha avó, quando escutei dela: Não sei para que esta droga. Agora as pessoas não mais falar olho-no-olho. Não vão atravessar a rua para conversar. Ficarão escondidas atrás deste aparelho…

Cabe deste período destacar que na segunda série do curso ginasial, o professor de geografia ensinou a respeito das mutações geológicas sofridas pela terra até chegar a configuração atual. E destacou que a tendência seria o descongelamento dos polos, resultando no desaparecimento do Rio de Janeiro e Recife…

A revista O Cruzeiro, então leitura cotidiana com muitas fotos, sempre mostravam o glamour e poder dessas cidades, especialmente o Rio de Janeiro. Isto foi o suficiente para eu perder o sono naquela noite, imaginando tudo aquilo submerso!

Enquanto eu repetia a terceira série do antigo curso ginasial, em 1954, fui certificado no curso de técnicas comerciais e contábeis pela Escola de Comércio Floriano Beirão, em Rio Grande.

Esta escola formava profissionais para atuar em todas as áreas de um back office, desde a Financeira, passando pelo Departamento de Pessoal até a Administração de Vendas. Em termos de conteúdo, equivaleria – hoje – a um curso de formação de Administradores.

Como a segunda reprovação me impedia de continuar no Lemos Junior, iniciei minhas atividades profissionais – formais – como auxiliar de escritório, na Empresa Wigg S/A, em Rio Grande.

Essa Empresa atuava no ramo de Agência de Navegação, Loja de Móveis e Eletrodomésticos, Importadora e Distribuidora de produtos que abrangiam de manzanas y duraznos de Mendoza a aguardente Marumby, Cerveja Cairu, Cimento Tupi. Até incluir automóveis e caminhões Ford. Além de manter uma indústria de pescados com o nome do criador, Wigg. Mister Vivian Wigg.

Mister Wigg como era chamado, além de empresário, acumulava as funções de cônsul da Inglaterra na cidade de Rio Grande. Seu sócio, Ernesto Guardiola Velloso e sua família, viriam a ter influência na minha trajetória.

Por outro lado, quem geria os negócios não cobertos pela Agência de Navegação era meu tio, Paulo Pereira. O modelo de gestão aplicado por Paulo Pereira, especialmente na programação de atividades e em sua capacidade de separar o pessoal do profissional, me produziram outra marca, que permanece até hoje.

Na Wigg S.A. iniciei reclassificando maçãs dentro de câmaras frigoríficas (mesmo!), evolui e desempenhei funções nas áreas de controle de estoque (4.600 itens com fichas amarelas, pré Kardex), administração de vendas, suporte a varejo e contabilidade.  E também fiz amizades que teriam influência em minha trajetória, especialmente Mário Ferreira Porto.

Outra forte influência que recebi foi de outro tio, Dorval Gonçalves. Tio Dorval morava na melhor casa da família, também recebida como presente de meu avô, Ele estruturava, montava e mantinha tudo, pessoalmente, da instalação de uma pia, a reforma do motor de seu Anglia, até a pintura da casa toda.

Em agosto de 1956 nasceu meu quinto irmão, Nelson.  Daí que, em janeiro de 1957 emigrei para Porto Alegre.

Os motivos, inconscientes dessa decisão, só foram identificados e assumidos décadas depois, em processo analítico a que me submeti com Maria de Mello Azevedo. Uma – que considero a principal – de minhas terapeutas.

Neste ano retomei o curso ginasial no Colégio Venezuela, em Porto Alegre, enquanto trabalhava na contabilidade de Motobrás S/A,  Empresa que tinha entre os sócios principais a família Velloso e que atuava na importação de máquinas industriais, especialmente de panificação.

Certa feita, depois de uma noitada de música, dormi sobre a mesa de trabalho durante o expediente e acordei às 20h com carta de suspensão ao lado da máquina de escrever adaptada para elaboração do livro diário, assinada pela Sra. Julieta Velloso.

Da. Julieta, como era conhecida na matriz e nas filiais de Pelotas e Porto Alegre, era considerada o terror. Hoje percebo que a imagem decorria de sua forma direta em  decidir e – principalmente – executar e exigir execução. Afinal, eu nunca a encontrei destratando ou desrespeitando alguém!

Mas, com vergonha diante da suspensão, me demiti. Com a ajuda de Aldo Dias Rosa, ícone na cidade de Porto Alegre no meio empresarial e esportivo, amigo de infância de seu pai, fui logo colocado como responsável pelo PCP da reprocessadora de óleos lubrificantes, Irmãos Johnstone Ltda, marca Refinoil.

Algum tempo depois, recebi um convite de meu cunhado, Zalmino Zimmermann, advogado e radialista, para me demitir da Refinoil e montar um negócio com ele. Ele se casara com minha irmã, Enilda, alguns meses antes.  Fi-lo e como o negócio não deu certo, ainda trabalhei um tempo no escritório de advocacia que ele mantinha com um sócio. Ali desenvolvi habilidades na estruturação e formatação de procurações, contratos, petições e contestações. Mas nem eu nem meu cunhado conseguimos nos viabilizar financeiramente.

Além disto, o trabalho com o meu cunhado era sem carteira assinada porque eu estava prestes a entrar para o serviço militar.  Fui então compelido a retornar a Rio Grande em 1958, por exigências deste serviço militar, mas deixei uma namorada em Porto Alegre, Jussara Moraes de Almeida. Nós nos conhecemos na juventude espírita do Centro Espírita Atheneu, cujo orientador era Zalmino.

Em Rio Grande, novamente retornei ao Lemos Jr, então na quarta série. Completei assim o curso ginasial laureado com o primeiro lugar entre os homens (embora a classe fosse mista, as notas eram separadas entre homens e mulheres). O primeiro lugar, feminino, com notas muito acima das minhas, foi de minha amiga Ana Maria Castelã, cujo pai, por mera coincidência, trabalhava com Aldo Dias Rosa em Porto Alegre. Esse período reforçou minhas ligações com a área política porque meu professor de Português, Dilermando Motta – advogado renomado na cidade – obrigava os alunos a irem assistir os comícios no coreto da Praça Tamandaré para depois, em aula, analisar sintaxe etc. Infelizmente ele não destacava a parte simbólica do discurso!

Eu tinha medo de ir para o quartel por tudo o que se falava nas ruas. Assim, por influência de meu pai, Masson, consegui ficar em reserva para, no segundo ano de convocação, a partir da primeira seleção, receber o certificado de 3ª categoria.  Tratava-se de um rótulo não muito lisonjeiro, como o próprio número sugere, mas para quem já decidira que seu caminho prioritário seria o intelectual isto não teve importância.

De posse do certificado de reservista, mesmo de 3ª categoria, fiz teste e fui aprovado para posição de escriturário no Banco da Lavoura de Minas Gerais S/A (depois Banco Real, depois ABN e agora Santander), agência de Rio Grande. Trabalhei ali de 1959 a 1961, devorando todo aprendizado que me propiciaram, devidamente registrado em uma Caderneta de Treinamento, criada pelo então Diretor de RH do Banco: Pierre Weill!

O desafio no Banco da Lavoura era fascinante, porque esse banco foi pioneiro em pagar a folha de pagamento dos professores: a listagem de valores líquidos, datilografada, chegava a agência por volta de 16h de determinado dia e se iniciava uma datilografação intensiva para fazer lançamento por lançamento, que depois seriam lançados em fichas individuais e, sobre papel carbono, no livro diário. Algumas vezes se avançava pela madrugada porque – nem pensar – abrir a agência sem estar com tudo pronto para receber os professores e ensiná-los a preencher cheques. Isto desmoralizaria a tese…

No Banco da Lavoura, voltei a me encontrar com Mário Ferreira Porto. Nessa época eu me engracei por uma guria em Rio Grande, carinhosamente chamada de Polaca, Alda Maria Poester. Vizinha de uma namorada de Mario, Carmem Lúcia, quando passamos a conviver com mais intimidade ainda.

Mas Mário, anos mais tarde se assumiu gay. Ele e Ivan Tavares, já assumido desde a adolescência, amigo e companheiro de juventude intelectualizada, liam muito e formaram um grupo com forte influência nas minhas ideias filosóficas a respeito de existencialismo e marxismo.   Aos finais de semana costumávamos nos reunir com um grupo também intelectualizado, liderado por Lauro Cerqueira de Carvalho, então um publicitário (raro, na época), destacado na cidade.

De Lauro aprendi uma lição, quando me expressou seu sentimento de que eu não tinha sorte: sorte, afirmou ele, é estares na parada do bonde na hora em que ele vai passar. Isto porque jamais ele sairá dos trilhos para te encontrar. Naqueles anos Rio Grande ainda tinha bondes trafegando pela cidade e esta referência serve de marca até hoje nas minhas expectativas e  sonhos.

Ainda nesse período, iniciei o científico (hoje 2º grau) no mesmo Colégio Lemos Junior, então no turno da noite. Meu objetivo era estudar engenharia civil.

Estruturando sonhos e alimentando desejos, em torno de 1958 assisti ao filme da história de Frederic Chopin. Fiquei impressionado e sonhando em encontrar uma mulher como George Sand, apesar de – na época – muitos a classificarem como sapatão (hoje lésbica). A história demonstrou que a opção dela era hétero e que apenas era uma mulher fora de seu tempo.

Esta idealização, de modelo de mulher, combinada com a admiração pelo modelo de configuração familiar observado nos gringos na Vila Residencial da Swift, foram decisivos – décadas mais tarde – na escolha de minha segunda esposa e na forma de vida que mantemos.

Registre-se ainda que meus sonhos profissionais de criança, eram dirigir ônibus e ser estradeiro (engenharia civil). Dirigir ônibus consegui com ajuda de meu irmão Nelson, que teve uma empresa de turismo. Estradeiro não consegui, mas anos depois acumulei  muita experiência na construção de moradias.

Em meio a todos estes acontecimentos, lembro que deixara namorada em Porto Alegre, Jussara Moraes de Almeida. Ela recebia muito apoio da minha família e um pouco da dela. Ambas por serem espíritas.

Este pouco apoio da família de Jussara era porque o Banco da Lavoura pagava salários baixos e naquele tempo se pensava em casar ou desmanchar o namoro quando o padrão do pretendente não correspondesse à expectativa da família da noiva.

Embora o núcleo familiar dela estivesse em processo de decadência econômica, parte de sua família vinha de um modelo de aristocracia rural, de Mato Grosso, o que criava altas expectativas em termos de padrão capaz de um genro manter.  A mãe dela chegou a levá-la para festas em Campo Grande, MT, hoje MS. Na expectativa de que encontrasse um pretendente melhor.

Quais marcas mais significativas foram consolidadas no ciclo 1950-1960?

  • Que diante de inovações, transformações tecnológicas ou de uso, o melhor é aderirmos logo a elas. Fica mais fácil o futuro.
  • Que se deve recomeçar tantas vezes quanto necessário, rumo a um objetivo maior. No caso, rumo a uma atividade intelectual.
  • Que é mais construtivo explicitar posições e tomar decisões sem receio dos efeitos típicos da cultura latina: suscetibilidade e produção de mágoas, subjetivas.
  • Que vivemos melhor, ao não transferir questões relacionadas ao ambiente de trabalho para o lado pessoal. Eu internalizara o modelo de Paulo Pereira e a convivência com Julieta Velloso. Em paralelo e com a postura dos Irmãos Johnstone consolidei um modelo que teria grande influência em minha carreira de Consultor, décadas mais tarde.
  • Que a terra se transformaria e, um dia, o ambiente humano não existiria como o conhecíamos. E lembremos que ainda não se usavam palavras tipo sustentabilidade, efeito estufa etc.
  • Que o que décadas mais tarde seria rotulado como diversidade (convivência próxima com negros e homossexuais, por exemplo) era algo comum, do dia-a-dia. Incorporei como variáveis cotidianas, pelas atitudes de meus pais, especialmente por recebê-los naturalmente em nossa casa.
  • Que criei fortes vínculos com a música erudita e que poderia aprender espanhol cantando tangos.
  • Que criei um modelo de mulher para mim: independente social e economicamente, mas dedicada e com muito amor na relação, somente.
  • Que a vida só faz sentido se corremos riscos!
  • Que a sorte só ajuda quem está na parada do bonde. (Lauro Cerqueira de Carvalho).