1960 - 1970 - A conquista da autonomia social, profissional e econômica

A carreira no Banco da Lavoura tendia então a uma trajetória longa e limitada financeiramente, por isto no primeiro semestre de 1961, decidi procurar alternativas: fiz concurso para  o quadro de auxiliares do Banco do Brasil.

Eram três matérias e a média das notas definia a classificação: português, matemática e datilografia. Somei 84 pontos na média, o que não me garantiu nomeação para Pelotas ou Rio Grande, objeto de desejo na época. Mas fui nomeado de imediato para a cidade de Arroio Grande, RS.

Esta nomeação garantiu uma festa na rua onde morávamos, Conde de Porto Alegre n° 69, em Rio Grande e… o consequente meu noivado com Jussara. Nesse momento, já com certo grau de beneplácito da família dela porque – afinal – funcionário do BB não era qualquer coisa!

Arroio Grande, berço de Irineu Evangelista de Souza – o Barão de Mauá – em 1961 não possuía sequer uma rua calçada e a luz elétrica era desligada às 19h. Exceto quando havia velório.  As famílias que tinha refrigerador era, em geral, Consul a querosene!

Esta cidade se situa a cerca 30 km da cidade uruguaia de Rio Branco (Jaguarão no Brasil), cerca de 30 km de Pedro Osório e 100 km de Pelotas. Tudo, na época, em estrada de chão que ficava interrompida a qualquer evento pluviométrico um pouco mais intenso. E dessa estrada se dependia a chegada de frutas e legumes em geral.

A agência do Banco do Brasil estava instalada em um prédio inacabado e os móveis eram todos improvisados porque dependiam do setor de compras do Banco, no Rio de Janeiro.

Deveria ter assumido a função no Banco do Brasil no começo de agosto, mas com o clima político social, que resultou na renúncia de Jânio Quadros, minha admissão só ocorreu em 06.10.1961.

No Banco do Brasil, ainda em Arroio Grande, iniciei minhas atividades no Conta Corrente. Os lançamentos ainda eram feitos a mão, o que se constituía em um problema por causa da minha letra, ilegível até hoje. Comparado ao sistema mecânico do Banco da Lavoura, voltei à idade da pedra, por isso ficava procurando criar alternativas.

Mas como nem sempre as alternativas que eu produzia no Banco davam certo, em dado momento o subgerente – meu superior imediato, Sr. André da Silva Notari, me chamou e com o dedo apontado para meus olhos enfatizou: sabe qual é o seu problema, Sr. Getulio? O senhor pensa demais! Foram precisos outros muitos anos para que o impacto desta cena se transformasse em uma percepção de elogio. Mesmo não sendo para aquela realidade.

Mas o emprego era estável e então fiz o que era padrão na época: marcamos, Jussara e Eu, o casamento para 30.12.1961.

Era o período pré-hippie e se considerava retrógado fazer festa de casamento nos moldes tradicionais, como se voltou a fazer depois dos anos 1990. Em vista disto, a cerimônia foi simples, com a família dela e os padrinhos, apenas. Logo seguimos em lua de mel para Pelotas e Praia do Laranjal. Por gentileza do tio Dorval e tia Maria. Quando, adiante, chegamos a Rko Grande houve uma festa discreta, organizada por minha família.

Jussara introduziu um novo referencial em termos de higiene, na família Ponce Dias. Referencial este que se manteria ao longo de nossa trajetória em conjunto, em todos os habitats.

E com meu sonho de mulher independente, fui o primeiro funcionário a abrir conta salário conjunta com a esposa. Sentia-me orgulhoso dela pagar contas e assinar cheques, mesmo que a fonte de renda fosse apenas a minha. Adiante, foram precisos muitos anos de vida e de análise para perceber que o sonho era somente meu…

Na agência do Banco do Brasil fui então transferido de setor, para trabalhar na CREAI (Carteira de Crédito Agrícola e industrial), como subordinado de Américo Valina Vazquez. Sr. Américo, como era chamado. Mais tarde ele veio a se  tornar meu amigo, incluindo sua esposa Corina e os filhos Américo, Pedro e, em particular a filha, também Corina.

Na CREAI fiquei responsável pela negociação das garantias, estruturação e redação dos contratos para investimentos e financiamento de projetos agrícolas: compra de máquinas,  financiamento das safras de arroz, predominantemente, etc.. Pratiquei esta atividade por mais de cem vezes ao longo de cerca de três anos!

Em 1963 nasceu meu primeiro filho, Sérgio Almeida Dias. Havia grande expectativa porque nessa época não se sabia o sexo antes do nascimento. Eu não portava grande preferência por homem ou mulher, mas havia certa pressão familiar para que fosse homem. Isto porque, naquele tempo, como hoje ainda em grande parte dos lares, se pressupunha que o progenitor deveria cuidar da família.

Sérgio nasceu na madrugada de quatro de abril quando saí pelas ruas, então desertas, de Arroio Grande à cata de alguém para contar e dividir a felicidade, mas não encontrei ninguém. Só mais tarde, depois de 7h…

Em Arroio Grande não havia escolas do que atualmente se denomina segundo grau, o que me dava uma sensação de perda de tempo em termos de minhas expectativas intelectuais

Tratei então de me ocupar, nas horas vagas, com venda de eletrodomésticos, especialmente som e TV (que não recebia sinal na cidade…) para empresa ligada por laços de família a meu antigo empregador, em Rio Grande, Wigg SA: a Barutot Velloso & Cia Ltda., distribuidora da marca Philips, com suporte técnico de seu pai, Armando.  Depois com venda de sementes e fertilizantes, de outros fornecedores.

Mas eu participava – também – ativamente de movimentos sindicais, em especial grevistas, principalmente para entrarmos em greve em dias pré-feriadões. 

Como 90% dos funcionários da agência eram oriundos de cidades distantes, isto facilitava o alinhamento aos movimentos, viabilizando encontro com as respectivas famílias distantes.

Nessa condição, representei o grupo de bancários de Arroio Grande nas atividades durante as greves, particularmente no Sindicato dos Bancários do RS. Este sindicato mantinha uma  ampla sede nos altos do Cinema Cacique, na Rua dos Andradas, em Porto Alegre onde, nestes períodos, mantinham música ao vivo durante as tardes e parte da noite. Ofereciam cuba libre ou Pepsi Cola grátis.

E quem pagava? Os banqueiros que em acordo com os líderes sindicais fomentavam a greve. Os banqueiros para pressionar o governo na liberação dos empréstimos compulsórios (uma aberração brasileira) e o sindicato para parecer que obteve grandes aumentos para a categoria. Quando eu soube disso minha cabeça deu meia volta! 

Ainda antes de abril de 1964, meu cunhado, Zalmino Zimmermann, foi nomeado Juiz para a comarca de Arroio Grande, transferindo-se com esposa e com seus então três filhos. Nesta cidade Zalmino liderou um grupo de investidores, numa tentativa de criação de um Hotel, o que não conseguiram viabilizar.

E então chegou ao Banco do Brasil o movimento de 1964. Mesmo tendo sido criado sob forte influência das ideias políticas de esquerda, ou populistas, eu escutava diariamente a Rádio Guaíba de Porto Alegre, especialmente os comentários/doutrina de Arlindo Pasqualini. Alinhei-me então aos que classificaram de absurdo a estatização – nada mais nada menos – da Ipiranga e da Varig, decretadas nos primeiros meses daquele ano por João Goulart.

Registre-se também que, na minha família, havia um forte vínculo com o fundador da Ypiranga, Dr. Bastos, para quem meu pai prestava serviços continuados em eletrotécnica. Além disto, trabalhar na Ipiranga era o sonho de qualquer letrado na cidade de Rio Grande.

Com a Varig, o vínculo decorria da frustração pelo fim da SAVAG, cujo proprietário, Comandante Kramer, morreu em acidente aéreo com Fernando Ferrari, então candidato independente a Vice Presidente da República, quando os dois se dirigiam para um comício no norte do RS.

Fernando Ferrari era chamado de candidato de mãos limpas, por ser o único que não estava vinculado à velha política e seus políticos corruptos que dominavam o poder! 

Com minhas características, idealismo e engajamento político, trabalhei ativamente para esse candidato e o impacto emocional com a perda foi significativo. Além do bairrismo de possuir uma Cia. Aérea (dois aviões DC3…) em Rio Grande, só restou passar a torcer para a Varig, então uma Companhia Regional. O folclore diz que gaúcho gostava, mesmo, era de cavalo e da Varig, mas eu  nunca fui chegado em cavalos.

Por estas e outras razões, tornei-me simpatizante do movimento de 31.03.1964, especialmente por acreditar que era um ato de redemocratização. Mas apesar disso, sofri perseguição e ameaças.

Nos primeiros dias de abril haviam chegado os interventores na Agência de Arroio Grande do Banco do Brasil: o Inspetor (hoje denominado auditor) Schumacher, o gerente Giampaoli e o subgerente, Cezar Socias Shenkel. Só muitos anos após fui perceber que se estas pessoas chegaram logo após 31.3, é porque já havia planejamento para o chamado movimento de 64!

E no final do primeiro semestre de 1964 meu cunhado já havia sido transferido para outra comarca, mas minha irmã voltou a Arroio Grande e com o discurso de que estavam muito necessitados e só eu poderia ajudar, chantageou-me emocionalmente. Então aceitei cobrar uma nota promissória relacionada ao Hotel que não deu certo, emitida por João de Deus Nunes. Isto teria – também – grande influência no que segue porque este fato foi registrado e depois usado como suporte a punição que recebi no Banco do Brasil.

Minha filha, Márcia, nasceu em 23 de julho de 1964, no começo da tarde. Foi dupla alegria: por mais um filho e por ser mulher, formando um casal. Era tudo o que eu sonhara, em termos de família.

E Cezar, que era meu chefe imediato, me  convenceu a não acompanhar Jussara  no hospital, como prevíramos. O argumento dele foi que eu era imprescindível na agência e que ele colocaria sua esposa no Hospital, cuidando de Jussara e Márcia, enquanto minha sogra, Henriqueta Moraes de Almeida, ficava em casa cuidando de Sérgio.

Aos 24 anos e com muita aspiração, ser reconhecido no Banco e fazer carreira, certamente senti como uma honra. Mas… cerca de trinta dias depois descobri uma variável que se tornaria decisiva no meu futuro: em uma noite trabalhando, sozinho, no Banco, por acaso olhei folhas de papel carbono no lixo que descreviam a transcrição de depoimentos colhidos clandestinamente pela esposa de Cezar, de cada uma das visitas que chegavam ao quarto de Jussara, na Santa Casa de Arroio Grande, RS.

Não fui o único a ser perseguido. Houve até colega e amigo que depois tentou suicídio.

Mas essa descoberta produziu um efeito que se mostrou muito positivo: naquele dia decidi me demitir do Banco do Brasil.  Decisão essa que não seria entendida pela maioria dos colegas e que causou espanto em meu meio social. Mas para tanto eu precisava estudar porque não apresentava perfil de empresário e – naquela época – emprego só muitos degraus abaixo do BB. 

Jussara foi fundamental nesse processo: me apoiou, moral e fisicamente, assumindo mais funções em casa. Estruturamos então novos sonhos e trajetórias para a família Almeida Dias.

Recebi no Banco do Brasil, a punição de Severa Censura (pré-demissão) o que me impossibilitava a obtenção de transferência para as poucas cidades onde havia faculdades, na época. Ou mesmo alguma promoção nos limites da carreira de auxiliar.

Assim, dentre as opções de cidades onde existiam escolas regulares, aproveitei a opção de Novo Hamburgo, RS, onde poderia retomar os estudos, completando o curso científico, rumo a faculdade de Engenharia, meu sonho. Cidade então com forte influência da cultura e idioma alemão. Coincidência?

Era janeiro de 1965,  Novo Hamburgo estava arrasada economicamente, pela quebra de cerca de 70% das grandes fábricas de calçados. Apesar disto, e pela compressão dos salários, os valores de aluguel eram imensos: eu recebia um salário líquido de cerca de $ 1.180,00 dinheiros (no Brasil nunca se tem precisão de qual moeda) e não conseguia casa para alugar por menos de $ 900 dinheiros. Com esposa e dois filhos pequenos!

Fui então incentivado por colegas do Banco a comprar um chalé (casa de madeira) em bairro de bom nível, mesmo que com ruas sem calçamento. Mas com que dinheiro?

Pois bem, por razões metafísicas cruzei com uma senhora que havia comprado um chalé do Sr. Fridolino Grams, com um terreno de aproximadamente 10 x 15 m, fraccionado de um lote maior.  Ela tinha uma dívida com Sr. Fridolino que se eu conseguisse transferi-la para mim ela passaria o negócio, que depois envolveria uma prestação de menos de 600 dinheiros mensais.

Sem experiência em negociações desse tipo, sai a procura do Sr. Fridolino que morava próximo a casa que desejava comprar. Soube então que ele estava veraneando em Picada Café, no município de Nova Petrópolis. E lá me fui, em ônibus da Viação Wendling, de Novo Hamburgo para Nova Petrópolis!

Chegando em Nova Petrópolis, soube que a tal Picada Café era distante e não havia condução regular para lá. Além disto, a maioria dos habitantes falava um dialeto alemão fluente, com um português que era quase sempre ininteligível. Então, sob o tudo ou nada, contratei um taxista, Sr. Haas.

E ali outra experiência metafísica: chegando na propriedade do Sr. Fridolino, passei a tentar explicar o motivo de minha estada para assumir a dívida da senhora para quem ele vendera o chalé, com prazo alongado – claro – coincidente com as gratificações semestrais do Banco do Brasil.

O negócio já estava quase inviabilizado por impossibilidade de comunicação português-alemão quando ocorreu novo fenômeno metafísico: o Sr. Haas, sensibilizado com minha história e argumentos, passou a negociar em meu nome, falando em alemão com o Sr. Fridolino. Resultado: o negócio foi feito.

Mas o chalé tinha uma construção precária, sem tábuas macheadas (era status na época possuir chalés assim) e sim com muitas ripas reaproveitadas, cobrindo os espaços entre tábuas mas Jussara e Eu  trazíamos móveis de muito bom nível de Arroio Grande. Resultado: assumi pessoal e diretamente, como tio Dorval, a reforma possível em dito chalé, que consistiu em recolocar as ripas e trocar as divisórias de lugar para se adaptarem às medidas de nossos móveis. Marcas Cimo e Contour, grifes da época.

Em Novo Hamburgo o chalé estava dentro dos limites socialmente aceitos, para um funcionário do Banco. Principalmente porque casa própria era um sonho a se realizar em torno dos 20 anos de banco, através de financiamento da PREVI. Mas perante a família de Jussara era um retrocesso social, de status.

Logo que mudamos para o chalé vivenciei a primeira experiência cultural, diferente de Rio Grande, Arroio Grande ou Pelotas, onde se esperava tudo do governo: certa tarde de domingo, depois de uma forte chuva de verão, escutamos o barulho de enxadas reparando a rua onde valetas foram reabertas. Jussara e Eu logo expressamos: que prefeitura eficiente… Pois bem, fomos olhar pela janela, para comemorar, e nos deparamos com alguns vizinhos de enxada na mão fazendo o serviço que – imaginávamos – seria atribuição do poder público.

Meio sem jeito, peguei uma enxada e me alinhei com o grupo. Nunca antes havia feito algo parecido!

Foi uma fase de adaptação difícil, especialmente nas datas comemorativas das crianças, por causa da família de Jussara. Mas ela foi uma companheira resiliente que suportou as pressões e aos poucos fomos seguindo o rumo decidido ainda em Arroio Grande.

E tudo com uma mensagem, aos filhos especialmente, do valor e utilidade das novas tecnologias: meu pai desenhou o esquema de um mixer, eu executei e substituímos as tradicionais cartinhas com notícias via fitas k7. Com sobreposições de músicas e vozes. Foi revolucionário e, lamentavelmente, não restou nenhuma dessas fitas ao meio de tantas mudanças de endereço!

Já em 1966, retomei o curso científico no turno da manhã,  na Escola Marista Colégio São Jacó, junto com adolescentes de classe média e média alta de Novo Hamburgo. Esta escola ficava em frente ao chalé onde morávamos, na Rua Curupaiti, bairro Vila Carioca. Mais tarde ela foi transformada em uma unidade da faculdade FEEVALE.

Nesse mesmo ano, também por concurso, passei a integrar o quadro de escriturários do Banco do Brasil. Era uma grande promoção, especialmente porque permitia acesso às mais altas carreiras administrativas, no Banco do Brasil e o aumento salarial foi significativo.

Em 1967,  Fridolino Grams construiu uma casa de alvenaria no restante do terreno, com material reciclado. Vendemos o chalé e compramos essa casa, com entrada e prazo para o saldo. Foi uma significativa ascensão social. Depois, Fridolino arrependeu-se do negócio. Era o período áureo do BNH e cometi o equívoco de tomar o empréstimo nesse Banco para quitar o saldo, com correção das prestações/saldo sob a inflação.

Mas meu prazer em aprender permanecia ativo e no primeiro semestre deste ano fiz um curso de recrutamento e seleção na Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, ministrado pelo psicólogo Ney Medeiros. Conscientemente nem imaginava para que isto serviria no Banco do Brasil, onde as chances de uso eram zero.

Já em 1967, terminando o primeiro semestre do terceiro ano científico, e preparando-me para o vestibular de engenharia, programamos uma viagem,  Jussara, Eu e os Filhos para São Paulo, em ônibus da Viação Minuano, nas férias de julho.

Embarcamos na estação rodoviária de Novo Hamburgo quando logo percebemos que a máquina de fotografia havia ficado em casa. Na época era peça rara e cara, resultando em rápida decisão entre Jussara e Eu: como eles ficariam hospedados em São Paulo em casa de parentes dela, seguiriam viagem e eu voltaria (estavam a cerca de 15 km distantes da rodoviária de Novo Hamburgo) para buscar a máquina.

O que seria uma operação um tanto ousada mas sem nada especial, criou uma exposição a nova vivência metafísica: a única opção em ônibus que consegui para retomar a viagem para São Paulo foi de um horário especial, criado para transportar estudantes de psicologia da PUC-RS (então a única faculdade no sul e uma das poucas no Brasil) para um congresso em São Paulo.

A viagem era de 18 horas. Fica então fácil entender que a escuta inicial dos assuntos discutidos pelas alunas que estavam no ônibus era sobre psicologia. Fiquei sabendo ali bastante do curso que tinha relação com o que aprendi com Ney Medeiros e que o principal pré-requisito para entrar na psicologia da PUC era se submeter a um exame psicotécnico (o vestibular, depois, era apenas classificatório). Psicotécnico este que tinha, entre outros objetivos, barrar o acesso aos portadores da doença homossexualismo!

Resultado: desembarquei em São Paulo com a decisão de não mais cursar engenharia. Se não que Psicologia.

Nos primeiros meses do segundo semestre, quando retornei às aulas, renegociei o foco do curso científico na Escola São Jacó e com especial ajuda do orientador da turma, Irmão Armando, consegui acertar prioridades, notas etc. No final de setembro recebi a notícia de que me foi dado o sinal verde para eu prestar o vestibular, pois no psicotécnico estive OK.

Nesse período já havia feito bom relacionamento com os jovens colegas na classe do São Jacó, praticamente divididos entre os vestibulares de Medicina e Engenharia.

Mas me transformei em  um peixe fora d’agua no curso científico. Felizmente sem afetar as boas relações pessoais com esses colegas e – principalmente – com os Irmãos Maristas. Com destaque para os Irmão Hugo, diretor, e Irmão Armando, orientador da turma.

Prestei o vestibular em dezembro, mas não me classifiquei entre o grupo que comporia a turma. Já estava me preparando para uma reciclagem e tentar novamente o vestibular no ano seguinte quando recebi uma convocação para participar de um grupo em Porto Alegre, liderado por uma senhora de nome Marlene. Nesse local ela informou que estava organizando um movimento para que a PUC abrisse nova turma extra para psicologia, em agosto. Neste ano se discutiam muito as políticas de incentivo ao ensino superior como prioridade do movimento de 1964, comandadas pelo então ministro da Educação, o gaúcho Tarso Dutra.

Ai outra vivência metafísica: em agosto, com mais cerca de 4 dezenas de colegas que não conseguiram a classificação em dezembro, estava admitido na primeira turma semestral da PUC-RS!

Iniciado o curso, deparei-me com outro obstáculo: como conciliar a faculdade, que iniciava às 14h e se estendia até as 20h, em Porto Alegre,  com os horários no Banco do Brasil em Novo Hamburgo?

Na agência havia apenas 3 funcionários com curso superior. Um deles era meu chefe imediato, Erno Guido Ullmann, professor na Escola Estadual 25 de julho. Ele sabia dos problemas que eu tivera em 1964 e minha decisão de estudar para sair do Banco, por isso decidiu me ajudar.

Guido transformou minhas atribuições em tarefa diária: Eu entrava às 6h 30, com Raul, o contínuo responsável pela limpeza e conseguia completar as tarefas até cerca das 11h. Nessa hora a agência já estava funcionando por isto, evitando passar na frente da sala do Gerente eu pulava o balcão, tomava o primeiro ônibus para Porto Alegre e de lá, no centro, outro para a PUC.

Outro destaque nesse período foi a convivência e absorção da poesia histórica e contemporânea do Brasil, declamada ou cantada. Grande influência teve, nesse processo, Mauro de Moraes, então meu meio cunhado. Passamos muitas noites revendo conteúdos e mensagens de letras correlacionadas ao momento histórico de cada uma. Um exercício que me marcaria quase tanto quanto a interação com os tangos argentinos, na década de 1950-60.

Quais marcas mais significativas foram consolidadas no ciclo 1960-1970?

  • Que não adianta esperar por ações governamentais. Quando a população assume, faz acontecer.
  • Que praticar a resiliência que aprendi, quando submetido ao cabaré da guampa, vale sempre, transformando a adversidade em nova oportunidade.
  • Que é preciso sempre aprender e, na medida do possível, abrir o leque para diferentes áreas.
  • Que o valor das poesias e da música romântica como aprendizado histórico e link de relacionamentos/empatias. Especialmente nas culturas latinas.
  • Que o importante não é o que fizeram para ti, se não o que fazes com o que fizeram para ti (J. P. Sartre).