1990 - 2000 - Reorientando a vida pessoal, profissional e política.

O início do vôo solo!

Com a intensificação de um novo ciclo de globalização, assumido parcialmente pelo Brasil a partir do Governo Collor e com minhas limitações relativas ao idioma inglês, no início da década de 1990 passei a me dedicar – prioritariamente – às empresas familiares. Usando a minha experiência e, principalmente, os conhecimentos e formação em atendimentos familiares negociações e intermediações adquiridos na Divisão Melanie Klein e na Unidade de Saúde de Novo Hamburgo.

Mas essa década também se iniciou conturbada para mim, no âmbito pessoal: 1991 foi o ano em que decidi me separar de Jussara, então com 30 anos de casamento quase completos, com muitas realizações: dois filhos maravilhosos; 3 casas construidas; coragem para romper o vínculo com um emprego estável (Banco do Brasil); virada de papel/imagem dentro da familia dela; dois cursos superiores, sendo eu Psicologia (o primeiro com terceiro grau, entre os filhos de Armando-Ignez) e ela Pedagogia (a primeira filha de Henriqueta); levar os filhos a conhecer o Brasil (eles só não chegaram ao AC, RR e AP) . Tenho a convicção de que – ao menos – metade do tempo em que estivemos casados tivemos excelentes trocas. E tanto foi uma relação com elevado saldo positivo, de certo modo referência, que fomos padrinhos em 13 casamentos!

Raros foram os que entenderam as razões e as consequências de tal decisão mas, dentro de mim, havia um desejo de preservar tudo de bom que construímos, visto que olhando para a frente só percebia aposentadoria e acomodação. Aposentadoria justa, porque era o que havíamos contratado enquanto namorados, mas… eu passei por grandes transformações e rasguei o contrato!

Neste mesmo ano interrompi o processo analítico com Maria Mello (cerca de 9 anos, com intervalos) e da sociedade na Tekowam/Chapiro, com Jorge e Pisa (17 anos).

Tudo agravado, emocionalmente, porque no segundo mês do ano de 1992, quando Jorge e eu  havíamos combinado de negociar com Francisco, este foi diagnosticado com câncer no intestino.

Mas o clima entre nós sempre foi muito positivo, o que  permitiu uma negociação que até surpreendeu o contador da Empresa em São Paulo e – principalmente – permitiu a preservação da amizade até a morte dos dois primeiros. Por conveniência dos três sócios, adquiri o quinhão de cada um deles na casa da Rua Costa Jr. Excelente local, mas demandando reformas.

Já Jorge e Francisco cederam, gratuitamente, a marca TEKOWAM (que em tupi guarani significa gente-futuro) para mim. Como cada um dos três, separadamente, poderia ir ao mesmo cliente oferecendo serviços paralelos, criei o Consórcio Empresarial TEKOWAM. Depois expandido a outros colegas.

Todos esses processos avançaram pelo primeiro semestre de 1992 adentro. Especialmente o profissional, visto que nunca antes imaginara tentar um voo solo! Em muitos momentos pensei que havia encerrado sua carreira.

E mais um fenômeno metafísico acontece em sua trajetória, logo no início desta década: A aproximação, interação e início de parcerias produtivas e duradouras com a Colega Maria Ester Soares.

Maria Ester, ou Teleca como era mais conhecida, aproximou-se de mim através de outra colega, Maria Helena Veronese, então parceira/sócia da Agência Recorde, do Rio de Janeiro. Agência esta que foi o primeira brasileira a se dedicar ao serviço de head hunter porque até então só existiam agências de emprego, Ainda hoje representando o maior volume de oferta.

Maria Ester é uma psicóloga com perfil raríssimo: se vale de consistente fundamentação psicanalítica, sem perder o foco nos clientes e mercados que estão condicionando aquela situação, que está se constituindo no objeto de seu trabalho. Isto lhe permite intervenções seguras, compreendendo como poucas, mas sem se valer de interpretações. Resgatando potenciais de pessoas e grupos como poucos conheci.

A aproximação profissional com Maria Ester me inseriu no processo que ela conduzia para os sucessores do Grupo Lachmann, então guindados a posições de comando por ausência trágica do patriarca e sua esposa, junto com principal cliente, em viagem aérea.

Com base nessas propostas, evoluímos na estruturação de modelos singulares de governança, com destaque para aqueles em que pôde capitalizar as experiências dela, Maria Ester, a partir dos primeiros anos da década de 1990.

Juntos e em paralelo, propusemos e implementamos modelos em empresas familiares que só recentemente puderam ser apresentados em grandes eventos internacionais voltados a sucessão familiar, como grandes novidades.

A partir dessa parceria, foram vários modelos testados, desde o estágio em áreas, até vivências acadêmicas sofisticadas, com herdeiros assumindo funções de trainee em grandes corporações, depois frequentando MBAs. Alguns até fazendo carreira nelas, antes de assumir posições em empresas da família.

Em decorrência dessas atividades, em Empresas familiares, dei forma e integrei diversos Conselhos de Administração, em empresas de diferentes segmentos, como navegação, construção civil, materiais esportivos, alimentos e outros. Conselhos esses formais, de S/A de direito (com ações na BOVESPA), ou resultantes de acordos entre sócios, negociados e formalizados através de seu trabalho. Em algumas Empresas, sob a parceria de Maria Ester Soares.

Jussara havia se mudado para uma casa nova em Vinhedo, que aportei como parte de nosso acordo. Restava a mim a interação dentro de minha residência, em Louveira, dentro de 24.500 m2 de área, com um casal (com 3 filhas) de suporte e um cachorro vira-latas!

No final do ano de 1992, incentivado por meu filho e nora de então, admiti que estava no mercado e, outra vez, algo metafísico: de uma cadernetinha de endereços manuseada em Curitiba, selecionei três nomes que só depois percebi que eram todas de descendência alemã. Estava feito o link com sua infância em Rio Grande, particularmente de sua relação com Vovó Pudindi (Leopoldina) e sua fiel guardiã, Olga.

Pois o primeiro nome para quem liguei foi Vera Blondina Zimmermann, em São Leopoldo… a do cartão em Cuba!

Vera desfrutava uma condição muito favorável no circuito São Leopoldo-Porto Alegre. Com clínica muito bem requisitada e atividades na UFRGS que lhe propiciavam desafios e status. Além disto, seus filhos estudavam em uma das melhores escolas do RS de então, o Sinodal, onde o pai deles trabalhava como professor.

Consolidou-se entre nós uma paixão avassaladora, culminando em uma transformação de vida, objetivos e vivências antes – inconsciente – desejadas, mas até então não assumidas. Tudo se transformou em nossas vidas.

No segundo semestre de 1993, já tendo decidido com Vera que passaríamos a viver juntos, na cidade de São Paulo, completei uma minirreforma no prédio da Rua Dr. Costa Jr, para criar condições para ela recomeçar suas atividades clínicas em um novo mercado. Ela, realmente, recomeçou ali e superou todas as expectativas de colegas e de alguns amigos que imaginavam que ela veio para São Paulo à procura de clientes, com minha cobertura, inclusive financeira. A econômica ocorreu, sim, consistente, mas a financeira ela sempre manejou e cobriu o que considerava necessário.

Ela contribuiu decisivamente para meu realinhamento de sonhos e projetos e eu na mudança de foco das crianças e no padrão de higiene da família como um todo. 

Nesse mesmo ano, de 1993, com respeito à sucessão familiar, evoluí e introduzi crianças menores de 9 anos e adolescentes nesses processos. Outro pioneirismo, valendo-me da experiência com Cláudio Osório!

Ao longo de 1994, Vera me incentivou  ir para os USA aprender inglês. No segundo semestre decidimos alugar uma edícula em Atlanta e estudar na ELS. Para tanto seguimos para essa cidade, em 30.11.1994. Só que nos esquecemos que estávamos profundamente apaixonados, por isto o estudo do idioma ficou limitado ao mínimo necessário para não sermos reprovados.

Depois seguimos em tour sócio-cultural por NYC, Philadelfia, Washington, New Orleans, Los Angeles e San Francisco. Dessa experiência, além do fascínio pela música em New Orleans, ficou marcada a visita ao Museu da Constituição Americana, na Philadélfia: de repente, eu estava diante de todos os princípios filosóficos da revolução francesa, que tão relevantes foram na minha formação. E que na França ficou na teoria

Além disso, observar uma cultura que foi estruturada a partir de imigrantes que chegavam e pagavam para entrar, ao contrário da AL, onde eles eram trazidos para saquear ou como degredados. Tudo desafiador para raciocínio de colonizado ibérico.

Por outro lado, nos USA interagi com um modelo de racismo muito diferente do brasileiro. Com destaque para pretos e chineses.  Modelo este que foi importado pelo Brasil a partir dos anos 2003.

Foi emocionante!

De volta ao Brasil, em 1995 ingressei no MBA-FIA-Administração Internacional, então vinculada à USP, que inclui um período de aulas e benchmark no exterior. Em minha turma, V, essas aulas foram ministradas na Vanderbilt University. Os principais benchmarks aconteceram na Federal Express (em Memphis) e na General Motors (projeto Saturno), nos USA. Conquistei o título através de monografia sobre a Constituição do Consórcio Empresarial TEKOWAM, na área do MERCOSUL.

Dessa vivência, resultou, sob a liderança de Paulo Toledo, um grupo com afinidades que até hoje permanece. Além de alguns colegas que se transformaram em clientes, ao longo desses anos. E Paulo, amigo destacado e – digamos – cliente às vezes informal.

E desse período, minha a inserção,  quase prematura (1995) como usuário de e-mail -internet,  o reconhecimento ao Amigo Paulo Toledo (BRISA), filho Sérgio Almeida Dias (FLEEX) e – recentemente – Rosana Lapenna (ARTYWEB).

Em 1995, Vera e eu adquirimos um apartamento no prédio para onde viemos morar, em São Paulo. No mesmo bloco onde morávamos de aluguel. Mas o nosso sonho, desde namorados, era uma casa e construir algo para o trabalho, juntos!

Aconteceu na segunda metade dessa década que fui chamado por Carlos Eduardo, o Karman, para assumirmos, juntos, um novo desafio: incorporação da área de TI pelo Banco ABN (então com cerca de 120 funcionários no Brasil) do Banco Real (então com cerca de 20.000 funcionários). Era um retorno a grandes corporações multinacionais.

Embora Karman aspirasse que eu assumisse o projeto de ajuste cultural do banco como um todo, por questões estratégias fui me confinando a Vice Presidência de TI. Isto porque o Diretor de RH – por coincidência – era Fernando Lanzer Pereira de Souza, meu contemporâneo de faculdade e filho da uma de minhas principais orientadoras de minha carreira e instrumentadora de técnicas de grupo: Edela Lanzer Pereira de Souza.

Nuncia identifiquei razões para resistência ao meu trabalho, por parte de Fernando. Até porque fui seu principal cabo eleitoral quando candidato a Presidente do Diretório Acadêmico na faculdade de psicologia. Mas a oposição era um fato e para poder contribuir fiquei restrito a área de TI.

Em outubro de 1998 , Vera e eu nos casamos, formalmente. Ao contrário de meu primeiro casamento, com festa no Buffet França (ícone na época) e infraestrutura para receber amigos de 4 estados brasileiros. Foi um momento de emoção muito significativo porque o ritual, dela chegando para a cerimônia trazida pelos dois filhos ficou marcado em todos.

E sobre atualizações tecnológicas, cabe registrar que em 1999, em parceria com Arquimedes Tecnologia, de Eduardo Scarabotto, desenhamos um core system para Empresa da área de Consumo que, devidamente documentado, evidencia proposta pioneira de B2B e B2C, simultâneo. Infelizmente esse projeto ficou restrito a essa documentação, hoje histórica, e disponível.

No início de 1999, devido ao sucesso crescente na clínica de Vera, promovi uma segunda reforma no prédio da Rua Costa Jr, em São Paulo. Desta vez para criar uma área especial para ela, na clínica infantil.

Mantive toda a infraestrutura nesse local onde Vera permaneceu com sua clínica por 15 anos.

Em sequência, cumprindo desejo de voltar a salas de aula,  ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Paulista, unidade Marquês de São Vicente, em São Paulo.

Além de voltar a frequentar banco formal de cursos regulares, voltei a conviver – ao longo de 5 anos – com jovens com interesses díspares dos meus. Especialmente porque a maior parte da classe era formada de moradores da chamada periferia. Uma experiência muito rica que deixou alguns vínculos.

Com destaque para o China, que cobria minhas ausências nas folhas de chamada (???) e o um grupo restrito (4) colegas, Marcelo Katz, Rogério Arbage e Renato Fabiano,  que permanece até hoje. Encontrando-nos e revendo posições teóricas, técnicas, políticas e afetivas. Envolvendo agora as famílias.

Quais marcas mais significativas foram consolidadas no ciclo 1990-2000?

  • Que é possível se abandonar um sonho, sempre que se tenha um substituto que aceitamos como mais adequado o tempo-espaço.
  • Que alçar vôos solo é muito mais difícil do que em bandos. Sejam de acadêmicos, de sócios ou de parceiros.
  • Que é possível se manter em voo solo, sob algumas vantagens, como desenvolver maiores habilidades de observação porque passa a inexistir quem lhe chama a atenção!
  • Que é sempre útil e saudável se voltar a um banco escolar.
  • Que um novo desafio, de grande porte, sempre nos faz lembrar o quão somos pequenos!
  • Que aprender de novo, praticando, é uma das melhores formas de se transformar o mundo.